segunda-feira, 18 de maio de 2009

ver para escrever


Li a seu tempo o romance Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes, nos anos 70. Confesso que na primeira leitura, dita na diagonal, pareceu-me uma prosa desarrumada, desconceituada no aspecto "gráfico-sintáctico".
Mas li alguns capítulos. E voltei atrás para recomeçar numa leitura mais disponível, com mais, digamos, paciência e atento à nova linguagem da sua escrita -porque havia reflectido sobre a razão estilística do assim ser. Digo, por outro lado, que renasci do bloqueio das duas décadas precedentes, após a leitura dos romances posteriores de Lobo Antunes; fez-me sentir noutro mundo narrativo um pouco semelhante à técnica do romance policial, mas de tal maneira eficaz que, concluí ser a sua prosa pós neo-realista, elaborada para se efectuar uma leitura bem mais rápida, cinética, algumas vezes poética, autobiográfica e contraditória de uma sociedade onde a loucura, se encontra fora das grades dos hospícios.
O percurso da minha geração -e do escritor-, encontra-se retratado
na sua obra literária desde a Memória de Elefante, este, viria a incomodar muita gente.

António Lobo Antunes foi candidato, várias vezes, ao Prémio Nobel por mérito do seu perfil de escritor que não é apenas "local"; lê-se em qualquer língua, fazendo-se compreender numa comunicação universal, que se chama, sinceridade e actualidade. Depois do merecido Prémio Camões o que será?
No mínimo terá de ser Nobel...



[O mau gosto d'Os Cus de Judas,
do Círculo de Leitores, em 1984]

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